O Brasil precisa mesmo de mais programadores?

@Gustavo Teodoro
8 min readMay 17, 2021

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Photo by Draga Work on Unsplash

"Aprenda a programar e consiga um bom emprego com um excelente salário", esse é um pensamento que tem sido muito compartilhado nas redes nos últimos tempos. E esse tipo de ideia não tem sido exclusivamente compartilhada por instituições de ensino da área de desenvolvimento. Na verdade é uma ideia muito compartilhada por executivos, diretores e até mesmo CEOs de startups e empresas que precisam de pessoas programadoras em seus times.

Um exemplo disso é que em Fevereiro de 2019 o governador do estado de Minas Gerais teve um encontro com alguns representantes de algumas das principais Startups do San Pedro Valley (uma comunidade de startups em Belo Horizonte). E segundo o post no Linkedin publicado na conta do governador eleito Romeu Zema uma das conclusões deste encontro foi que:

"o maior desafio dessas Startups é ter profissionais capacitados para atuar na area, como programadores, por exemplo"

Mas será mesmo que o que as startups e empresas mais precisam no Brasil é de programadores? Será que realmente faltam estes profissionais por aqui?

Contexto

Antes de iniciar este artigo eu gostaria de deixar claro alguns pontos que considero importantes para contextualizar o meu lugar de fala:

  • Essa é a minha opinião pessoal baseada na minha experiência atuando como programador desde 2010 para empresas no Brasil e no exterior em alguns contextos diferentes (startups, agências digitais e de publicidade, empresas grandes, médias e pequenas).
  • Eu só sou um programador hoje porque em 2009 fui aluno de um projeto social (Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia) que tinha a missão de ensinar arte e tecnologia a jovens de baixa renda. Portanto, sou a favor de toda e qualquer iniciativa de inclusão de pessoas realmente interessadas na área de desenvolvimento.
  • Este artigo tem o propósito de levantar uma reflexão sobre o assunto para instigar novas formatações e organizações para os times de desenvolvimento hoje no Brasil. Vamos deixar de lado aqui o julgamento a instituições ou figuras específicas. É uma reflexão com o único propósito de questionar e instigar mudanças estruturais a partir do diálogo.

Onde estão as pessoas desenvolvedoras do Brasil?

Para entender a falta destes profissionais é preciso primeiro ter um olhar sobre a realidade atual do Brasil. De fato, muitas dessas pessoas atualmente estão vivendo no Brasil porém trabalhando para projetos no exterior, essa não é a realidade da maioria das pessoas desenvolvedoras no nosso país, mas cada vez mais tenho percebido um aumento no número de pessoas que estão trabalhando para o exterior (e para não ser injusto aqui, é preciso ressaltar que estamos falando do país que tem a moeda que mais se desvalorizou durante a pandemia, então é esperado que as propostas em dólar acabem chamando mais atenção dessas pessoas).

Por outro lado ainda existem aquelas pessoas desenvolvedoras que trabalham em projetos no exterior ou até vivem mesmo no exterior, mas gostariam de estar contribuindo com algum projeto no Brasil. Essas figuras realmente existem, mas também é bastante difícil apresentar dados específicos, pois não temos no nosso país muitas pesquisas públicas conhecidas sobre este assunto.

Quanto ganha uma pessoa programadora que trabalha no Brasil?

Existe uma carência ainda de pesquisas na área, mas já temos algumas, vamos dar uma olhada, por exemplo, em alguns dados levantados pela Pesquisa Salarial de Programadores Brasileiros 2020–2021 feita pelo canal Código Fonte TV. Participaram 11.441 programadores brasileiros, infelizmente não da para apontar muitos dados sobre as pessoas desenvolvedoras que vivem fora do Brasil, pois nessa pesquisa apenas 1.8% das pessoas que responderam moram e trabalham fora do Brasil.

Mas vamos começar pelas pessoas desenvolvedoras no Brasil:

Média Salárial das pessoas desenvolvedoras no Brasil — Fonte: pesquisa.codigofonte.com.br

Em seguida temos os dados referentes ao salário das pessoas desenvolvedores que moram e trabalham fora do Brasil distribuidos em dois grupos: pessoas que pretendem voltar ao Brasil e pessoas que não pretendem voltar ao Brasil.

Média Salarial das pessoas desenvolvedoras que responderam a pesquisa e que moram e trabalham fora do país — Fonte: pesquisa.codigofonte.com.br

Para tentar trazer um pouco mais de dados para essa conversa, vamos comparar também a faixa salarial das pessoas que responderam a pesquisa State of JS 2020. Essa é uma pesquisa que acontece atualmente todos os anos e a edição do ano de 2020 foi respondida por 23.765 pessoas em 137 países.

Antes de já apresentar os dados aqui, adianto que esta é uma pesquisa focada mais no universo de JavaScript (aborda front-end, back-end e full stack) porém com o foco em JavaScript, sabemos que existem outras linguagens que a remuneração varia bastante com relação ao JS (para mais e para menos).

Salário anual das pessoas desenvolvedoras que responderam a pesquisa mundial State of JS 2020 — fonte: https://2020.stateofjs.com/en-US/demographics/

Com os dados levantados pela pesquisa do State of JS 2020 podemos perceber, agora com um número maior de participantes (23.765) que mais de 29.9% dos entrevistados para essa pesquisa global ganham um salário anual de entre 50 e 100 mil dólares americanos por ano e que 20.7% dos entrevistados recebem entre 100 e 200 mil dólares por ano.

Comparando os dados podemos entender a discrepância dos salários oferecidos no Brasil com a média mundial. Como nesta pesquisa temos essas faixas que não da pra especificar um valor exato, vamos trabalhar com o menor valor possível que podemos assumir baseando nessa pesquisa. Mais da metade dos entrevistados recebem pelo menos 50 mil dólares por ano, utilizando a conversão atual (R$5,23) isso representa uma média do salário global de R$21.815,26 contra a média de R$7.684,27 no Brasil. Bom, acho que até aqui já deu pra compreender o motivo de boa parte das pessoas desenvolvedoras estarem optando por trabalhar em projetos do exterior.

Percebo que as empresas no Brasil precisam rever suas políticas salariais e compreender que é uma profissão que se compete salário de forma global, uma vez que uma pessoa desenvolvedora que reside no Brasil pode ser contratada para uma startup do vale do silício e gerar os mesmos resultados que uma pessoa desenvolvedora que reside nos EUA.

Muitas vezes as empresas no Brasil justificam os salários dizendo que "estão seguindo a média do mercado", portanto se o mercado não valoriza os profissionais, também podemos não valorizar, ou podemos valorizar um pouquinho a mais do que os que não valorizam. Essa regra é aplicada não só para vagas na área de programação, mas também para todas as outras áreas, difícil é encontrar uma profissão no Brasil que cubra no mínimo o salário Dieese e ofereça condições mínimas para uma vida digna. De modo geral as empresas por aqui precisam urgentemente repensar os salários para praticamente todas as áreas, mas isso é assunto para um outro artigo.

É só sobre salário?

Certamente temos que avançar muito em termos de salário em todas as áreas no Brasil. Mas não é só sobre isso quando se trata do desenvolvimento de produtos digitais e produtos que necessitam de pessoas programadoras. As empresas podem conseguir ter excelentes times com profissionais extremamente competentes se souberem organizar todas as peças para a construção desse tão sonhado time produtivo.

Post da Silvia Coelho @elasprogramam no Instagram — https://www.instagram.com/p/CL_5axNnbp8/

O primeiro ponto é que muito provavelmente os projetos não precisem de tantos profissionais seniors quanto se imagina.

Basta perguntar para algumas pessoas desenvolvedora com mais tempo de experiência para perceber que muitas vezes elas são alocadas em tarefas que facilmente um profissional com menos tempo de experiência conseguiria tranquilamente fazer. As empresas utilizam a figura sênior como esse tiro de canhão que pode resolver todo e qualquer tarefa do projeto.

Com uma boa liderança, uma boa gestão com as ferramentas adequadas (como treinamentos, troca de conhecimento entre os profissionais, pair programming) pode se ter um time de tecnologia extremamente produtivo e em constante evolução com os todos os níveis de experiências (estagiário, junior, pleno, sênior, lead). Assim a figura sênior ou lead fica sendo apenas mais uma peça nesse time montado de forma inteligente com tarefas designadas para cada nível de experiência.

Conclusão

Para pessoas

Para as pessoas que programam ou que estão pensando em programar, a minha conclusão é que todos podem aprender a programar, assim como experimentar outras atividades. Perceba que a programação utilizada para criação de carros autônomos ou internet banking é só uma parte da coisa. Existe um universo de possibilidades, como a escrita que pode ser utilizada para vender um produto ou para produzir arte. Experimente, permita-se. E enquanto sociedade, que possamos construir um futuro no qual todas as pessoas tenham acesso a esses estudos, de programação, diálogo, finanças, música, cinema, esportes.

Para empresas

Já para as empresas a reflexão me leva a pensar que temos que construir times mais inteligentes, organizados, com espaço para pessoas que estão começando e com organização para que isso funcione. Se você só consegue contratar pessoas com mais tempo de experiência é porque provavelmente nenhuma outra parte da engrenagem está funcionando bem. Você não consegue definir tarefas, planejar features e principalmente não consegue criar um ambiente que seja amigável e produtivo para pessoas que estão iniciando na carreira. Converse com seu time, pergunte para as pessoas o que poderiam torná-las mais produtivas, descubra qual peça da engrenagem está quebrada. E principalmente: ofereçam salários mais justos não só para pessoas programadoras, mas para cada pessoa que leva a vida trabalhando para que o seu projeto seja um sucesso.

E o Brasil?

Nós vivemos em um país em desenvolvimento, por isso é fácil entender que precisamos sim de muitas coisas como vacinas, saneamento básico, educação, saúde, dentre muitas outras. Afirmar que o Brasil só precisa de mais programadores é no mínimo uma falta de visão do todo. Mas sim, também estamos vivendo em um momento no qual a tecnologia tem avançado e a demanda por este tipo de profissional está mesmo em alta, não só aqui, mas no mundo todo. Assim como já foi um dia para engenheiros, médicos, advogados dentre outras profissões.

O mais importante de tudo isso: Cuidado com esse discurso, não se pode garantir bom salário para nenhuma profissão, principalmente pro "resto da vida" como vendem esses cursos milagrosos. Se você se interessa por programação e acredita que quer trabalhar com isso, você não precisa comprar cursos que custam um carro zero e te prometem essa tal "riqueza". Como se alguma profissão deixasse alguém rico no Brasil. Sobre este assunto especificamente eu indico o episódio Vire Programador em 7 Dias do podcast QuebraDev.

Um outro ponto importante: o Brasil e o mundo precisa de mais programadoras. Mas como já disse, você não precisa investir um carro zero pra compreender a carreira e perceber se é algo que você quer ou não fazer. Para isso existem muitos projetos incríveis como o Reprograma, Elas Programam, MinasProgramam, PrograMaria, Womem Who Code, e muitos outros.

Para se aprofundar um pouco mais nessa reflexão toda eu troquei uma ideia sobre isso com o Luiz Baldi no nosso podcast DevDevs.org

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